domingo, 28 de fevereiro de 2010

Os Búzios não vieram da África

Se alguma vez pronunciamos a palavra Búzio, logo a seguir forma-se uma imagem na mente de qualquer ser humano ligando ao culto afrobrasileiro, mas para a curiosidade da comunidade afrobrasileira, os búzios não são nativos africanos.

Segundo alguns estudiosos os búzios conhecidos por Caurí foram introduzidos na áfrica pelos europeus, este objeto que já foi à moeda corrente da áfrica e o objeto mais cobiçado entre as religiões afrodescendetes vindo de terras estrangeiras!

Estes estudiosos que afirmam que durante o século XIV o comércio entre os povos africanos, europeus e suas comitivas, era feito a base da troca da moeda Caurí de origem asiática. Mas se a história confirmar estes relatos muitos conceitos africanos deverão ser revistos, que baseados nos antigos Itan que relatam a presença dos búzios na cultura e religião afro desde a origem do homem, sendo usados para rituais e importantes instrumentos de comunicação com as divindades.

Estes Caurí incorporaram na áfrica através das culturas vizinhas, será possível?
Ifa Divination (Willian Bascom)
A maioria dos sacrifícios incluí dinheiro (owo), embora muitos não o prevejam. Os montantes estão fixados nos versos em termos de caurís (owo), que serviram como dinheiro antes da introdução da nova moeda corrente. Na parte segunda, o número de caurís exigidos e fornecido pelos textos iorubás e pelas suas traduções interlineares, sendo seus valores traduzidos nas páginas opostos em termos de libras, shillings, pence e Ọninis. O Ọnimi era uma moeda nigeriana e valia um décimo de um penny, tendo uso corrente em 1937‐38, ocasião em que o shilling equivalia a Us 0.24. Após a segunda guerra mundial lentamente foi saindo de circulação em decorrência da inflação e o valor do shilling caiu para Us 0.14 por causa da desvalorização da libra esterlina. Uma segunda desvalorização da moeda inglesa em 1967 reduziu o valor do shilling para Us 0.12.
A inflação reduziu o valor dos caurís desde os primeiros dias do tráfico de escravos. Em 1515, o rei de Portugal concedeu uma licença para a importação de caurís procedentes da Índia para São Tomé, e em 1522 estavam sendo importados na Nigéria, vindos da costa malabar por meio de comerciantes portugueses (Ryder, 1959: 301). Durante o século XVII, os holandeses importavam (IFÁ DIVINATION –WILLIAM BASCON 68.) caurís para Nigéria, procedentes das Ìndias orientais (Dapper, 1668: 500). Durante o século XIX, informava‐se o valor que o valor de 2.000 caurís era 4s.6d. 1, segundo tuckeer (1853: 26) e como tendo caído para a faixa entre 2s. e um 1s. 5d., segundo Burton (1863: I, 318‐319), quando caurís ainda mais baratos estavam sendo importados de Zanzibar. Estes caurís de Zanzibar (owo eyọ) conduziram os menores caurís brancos da Índia e das Índia Orientais para fora de circulação como moeda, conquanto ainda sejam usados com propósitos rituais. Quando caurís foram substituídos por moeda corrente, o valor de 2.000 caurís estabilizou-se a 6 d., pelo menos com o fim de divinação ou 80.000 libra. Caurís eram contados em cordões de 40 cada, em feixes de 200 (5 cordões), em cabeças de 2.000 (10 feixes) e em sacas de 20.000 (10 cabeças) pesando 60 libras. Na faixa de dinheiro incluído nos sacrifícios, a unidade básica de contagem é de 2.000 caurís (egebewa, egba).
Quando dinheiro está incluído no sacrifício, fica entendido que, exceto quando especificado diversamente no verso, fica em poder do divinador a título de pagamento (eru). Alguns versos elucidam quando ele não recebe pagamento algum; outros dizem que ele não pode conservá‐lo e precisa passá‐lo adiante.
Alguns versos (p.e. 35‐7, 241‐2, 248‐1, 248‐2) exigem a mesma soma de dois ou mais indivíduos, incrementando o rendimento potencial do divinador mas não o custo para cada consulente individual. Os montantes mais comumente mencionados nos versos registrados são 7 d. 2 o. (doze exemplos), 1 s. 7d.8 o. (catorze exemplos), 3 s. (vinte e três exemplos) e 11 s. (doze exemplos). A faixa estende‐se desde menos de um penny (7,8 oneres) até trinta Shilling, com dois shilling com medial.
Essas somas de dinheiro eram muito mais custosas naqueles tempos anteriores a inflação, que reduziu o valor dos caurís, mas mesmo assim eles não eram nada baratos em 1937‐38. Segundo Farde e Scott (1946:91) o salário por dia dos trabalhadores das fazendas de cacau de Ifé era apenas uma safra muito próspera de cacau, e, em 1937, trabalhadores de cacau recebiam simplesmente seis pence por dia, de acordo com informantes de Ifé.
1shilling, d- pence, l libra esterlina (£) corresponde a 20 s. Ou 240 d. Ou seja, 1 s. vale 12 d. (N do T)

Estes búzios que foram usados como moeda corrente e instrumento de adivinhação pelos sacerdotes da religião aos Òrìṣà e Ifá, são referência atual de poder no ritual afro, porem segundo mais algumas fontes que afirmam que eles não nasceram na África, traçando rotas distantes até aportar no continente africano.
Tais moluscos são até hoje usados como instrumento de comunicação para com os Òrìṣà, importantíssimos objetos sagrados e ritualísticos que algumas vezes representam riqueza e ou prosperidade mágica no culto.

Perante o conceito africano Òrùnmílá é uma divindade dotada de uma inteligência incomum, e é consultado pelos Babalawo, Babalòrìṣà e Iyalòrìṣà que comunicam-se com as divindades africanas através do conhecimento de Òrùnmílá. Existem itan que rezam que até mesmo Ọlọrun foi procurar o conhecimento deste para suas dificuldades, devemos analisar a necessidade do Deus maior entre os Yoruba em procurar um sacerdote para resolver seus enigmas. Acreditar neste paradigma é repensar a influência que Òrùnmílá tem sobre os deuses africanos, tudo isso vinculado aos Caurí e a potencialidade dos seus segredos.

Da mesma forma que veremos entre os itan mais antigos, menções que contam que Òrùnmílá usa da sabedoria para resolver problemas dos deuses, receitando Ẹbọ com vários Caurí.

Indo além poderemos observar no conceito que arrasta o poder ritualístico, na ciência e mistério que envolve os Caurí, da mesma forma que sabemos que o culto de Òrìṣá e o culto de Ifá praticamente não fazem nada sem Èṣù, Ọ̀ṣún, Òsanyìn e Obàtálá, da mesma forma que é imprescindível a presença destas divindades no culto. Fazendo com que Òrùnmílá possua sabedoria e ciência para desvendar os caminhos de Ifá, porem não é portador de poder algum.
Após uma breve pesquisa na Net, foi possível achar mais um rico conteúdo que entra novamente com dados históricos e informações curiosas.
http://www.cliohistoria.hpg.ig.com.br/bco_imagens/moeda/moeda_04.htm
http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,oi1170197-ei6607,00.html

Classificações cientificas
http://www.maramar.ind.br/Shells/visSpecie.aspx?dsF=CYPRAEIDAE

Por Erick Wolff∞
Agradecimento Luiz L. Marins

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Ìyámi Òṣòrọ̀ngà

Os segredos da terra guardados pelos pactos da sociedade secreta da Ìyámi Òṣòrọ̀ngà.
A existência de Ìyámi Òṣòrọ̀ngà é tão antiga quanto os pensamentos de Ọlọrun.
Sua sabedoria e força rende-se neste Oriki.

1. Eleye com uma boca redonda.
2. Pássaro àtíòro que desce docemente.
3. (Eles se reúnem para beber o sangue) voa
4. sobre o teto da casa.
5. (Passando da rua) colocou no mundo (Come desde a cabeça, eles estão contentes).
6. (Come desde a cabeça, eles estão contentes) colocou no mundo (Chora como uma criança mimada).
7. (Chora como uma criança mimada) colocou no mundo ajé
8. Quando ajé veio ao mundo
9. Ela colocou no mundo três filhos.
10. Ela colocou no mundo “ Vertigem”
11. Ela colocou no mundo “Troca e sorte”
12. Ela colocou no mundo “ Esticou-se fortemente morrendo”
13. Ela colocou no mundo estes três filhos.
14. Assim eles não têm plumas.
15. O pássaro akó lhes deu as plumas.
16. Nos tempos antigos, elas dizem que elas não gratificam o mal
17. no filho que tem o bem.
18. Eu sou vosso filho tendo o bem, não me gratificai o mal.
19. Vento secreto da Terra.
20. Vento secreto do além.
21. Sombra longa, grande pássaro que voa em
22. todos os lugares.
23. Noz de coco de quatro olhos, proprietária de vinte ramos.
24. Obscuridade quarenta flechas (É difícil que o dia se torne noite).
25. Ela se torna pássaro olongo (que) sacode a cabeça.
26. Ela se torna pássaro untado de osù n muito vermelho.
27. Ela se torna pássaro, se torna irmã caçula da árvore akòko.
28. (A coroa sobe na cabeça) segredo de Ìdo.
29. A rã se esconde em um lugar fresco.
30. Mata sem dividir, fama da noite.
31. Ela voa abertamente para entrar na cidade.
32. Vai à vontade, anda à vontade, anda suavemente para entrar no mercado.
33. (Faz as coisas de acordo com sua pró pria vontade)
34. Elegante pássaro que voa no sentido invertido de barriga para cima.
35. Ele tem o bico pontudo como a conta esuwu.
36. Ele tem as pernas como as contas sègi.
37. Ele come a carne das pessoas começando pela cabeça.
38. Ele come desde o fígado até o coração.
39. O grande caçador.
40. Ele come desde o estômago até a vesícula biliar.
41. Ele não dá o frango para ninguém criar,
42. mas ele toma o carneiro para junto desta


 

Fonte: http://www.pierreverger.org/fpv/index.php

 
Agradecimentos
Luiz L. Marins

Màrìwò

O uso mágico das folhas na religião iorubá sempre vem acompanhado de expressões de encantamentos que visam despertar o àṣẹ das fôlhas utilizadas. Estes encantamentos são chamados ọfọ̀.
Vamos apresentar aqui, periódicamente, uma folha e seu respectivo ọfọ̀, na singela intenção de dividir cultura e conhecimento.



Sinomínia: Ewé Ọ̀sanyìn.

Palm Fronds: Màrìwò

ọfọ̀

Ni gbe oju ọrun yìn'bọn idẹ
Màrìwò ọ̀pẹ̀
Ni gbe oju ọrun yìn'bọn idẹ

Ogbè kàràn (Ogbè ọ̀kànràn)

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Folha do Màrìwò

Atira a arma de latão nos céus
Palmeira mariwo
Atira a arma de latão nos céus

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Fonte:

Pierre Fatumbi Verger
“Ewe, o uso das plantas na sociedade iorubá”, 1995.
Por Luiz L. Marins

domingo, 7 de fevereiro de 2010

BARA

Luiz L .Marins



08/02/2010


Nas ultimas décadas esta palavra de quatro letras virou sinônimo e explicação para quase tudo dentro da religião dos orixás, especialmente o candomblé.
Sinceramente não sei como a palavra "Bara", pura e simples, pode significar "Rei do corpo" ou "Exu do corpo". A tentativa de dizer que ela deriva de Òbàrà não se justifica, pois esta palavra quer dizer apenas, um dos odù de Ifá.
Na minha visão, "Exu do corpo" não existe na Noção de Pessoa Iorubá. Isto é um profundo erro de conceito de algumas teses acadêmicas. Penso que o assunto em que trata esta palavra deve estar referindo-se ao Exu do Orixá.
Para tentar dar um pouco de luz à questão, fomos procurar os dicionários, que não esclarecem conceitos, mas explicam as palavras. Vejamos alguns significados de Bara conforme os dicionários (observem os tons):
Dictionary of the Modern Yoruba, R.C.Abraham, 1962 (várias páginas):
bàrà = melancia > citrullus vulgaris.
bàrà = mausoléu real onde são enterrados os Aláààfin.
bàrà = bàrà-bàrà = correr esquivando-se ou movimentando de um lado para o outro.
bára = encontro, reunião.
bárà = uma coisa podre.
bààrà = expressão ligada ao ato de defecar.
báárà = o ato de estar começando algo.
bárá-bárá = o ato de amarrar algo com firmeza.
bára-bàra = fazer algo supercialmente
A Dictionary of the yoruba language, CMS, p. 53
bàrà = planta rasteira que fornece o oleo de semente egunsi.
bara = deus do engano, o demonio, Ifá.
bárabára = pequena quantidade.
bàrabàra = rapidamente, apressadamente.

Existe outra palavra, gbára, que significa “a parafernália ou conjunto de coisas de algo ou alguém, ou de uma situação em particular”. Esta palavra quando aplicada sobre os assentamentos religiosos toma uma conotação especial porque, todos os elementos juntos que compõe o assentamento de um determinado orixá pode ser chamado de gbára òrìsà.
O conjunto de elementos que formam o igba-ori (assentamentos do orí) pode ser chamado de “gbara orí”. O mesmo vale para a mesa de jogo e todo os elementos que o compõe. Ocorre porém que esta palavra não tem nada a ver com Exu.


Espero ter oferecido uma pequena contribuição.


http://www.orixa.rg3.net/
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09/02/2010
José Beniste em seu livro Òrun-Àiyé: o encontro de dois mundos: o sistema de relacionamento nagô-yorubá entre o céu e a Terra (Bertrand Brasil) usa a palavra Bara, sem acentos, e afirma que é uma forma reduzida de Elégbára. ele se baseia na usualidade iorubana de aglutinar frases em uma só palavra e na simplificação de palavras como, por exemplo, okutá - otá, Orixá - Oxá, Orixá Nlá - Oxalá, Ebó Ori - bori, etc.
Juana Elbein dos Santos usa o mesmo princípio e deduz, a partir da análise sistemática das funções primordiais de Exu, chega a conclusão de que Ele é Obará ou o rei do corpo (Obá ará). Mas, a princípio, ela não afirma que o nome Bará, seja uma corruptela de Obará. Ela diz que Exu é Obará.

Axé

Hendrix
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Luiz L .Marins

09/02/2010
O conceito do José Beniste eu concordo pois pode ser referendado pelos dicionários; quanto ao da Juana Elbein, ela precisa esclarecer como chegou a essa conclusão, pois os dicionários não confirmam.