sábado, 16 de setembro de 2017

ELÉGBAA, ÈSÙ E ALÁGBÁRA

Erick Wolff

Setembro de 2017


Notamos que a divindade Legba vem sendo tema de várias postagens; assim aproveitamos a oportunidade para esclarecer algumas dúvidas para a comunidade do Batuque do RS, traduzindo este pequeno texto da Chief Fama, a tradução da Palavra Elégbà do dic Beniiste.


Chief Fama, sacerdotisa de Ifá do Ijo Òrúnmìlà Ato, de Lagos, registrou às páginas 140/141, capítulo 13, título Oríkìs[1], do seu livro Fundamentals of the Yoruba Religion, 1993, publicado pela também sua editora Ilé Òrúnmìlà Communications, informações sobre Èsù e Elégbaa que ouviu de seus mais velhos do templo citado, e que transcreveremos aqui, pinçados, alguns extratos de sua fala.[2] Segue:

“Uma coisa fascinante sobre oríkì é o fato que nomes atributivos que estão contidos em um oríkì são algumas vezes substituídos por nomes reais. Tal é caso de um poderoso Òrìsà cujo nome atributivo é Alágbára, mas que é conhecido e chamado na Iorubalândia, como Èsù.

De alguma forma, este nome atributivo chamado Elégbaa na diáspora, é confundido pelos devotos da diáspora como sendo um Òrìsà diferente de Èsù.

Em toda a Iorubalândia, Èsù raramente é chamado de Alágbára, [mas quando é], é Alágbára e não Elégbaa, como ocorre quando um oríkì de Èsù é recitado […]

Elégbaa é uma pronúncia corrompida de Alágbára, que significa: “uma pessoa poderosa” referindo-se a Èsù como sendo um Òrìsà muito poderoso, título dado a ele por seus devotos.

Assim, a diáspora precisa ter em mente que a palavra Elégbaa deveria ser propriamente falada e pronunciada Alágbára, que é um título que identifica Èsù, e não um outro Òrìsà.

Encontramos no dicionário Yoruba Português do Beniste, p. 238, a palavra Elégbà que corrobora com o conceito apresentado pela Chief Fama:

Elégbà (élégba) - Pessoa com qualidades excelentes.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

É comum vermos considerações sobre o Elégbaa ser uma divindade diferente de Èsù, no entanto observamos que se trata da mesma divindade, chamamos a atenção que com o passar dos anos a palavra Elégbaa foi se desconstruindo e transformando na corruptela  Légba, assim como ocorreu com palavras ou nomes de outras divindades. 







[1]   Oríkì são poemas de louvores onde importantes informações culturais e/ou religiosas são registradas.
[2]    Agradecemos a Luiz L. Marins pelas sugestões, e por fornecer o material de pesquisa.

TEÍSMO, ATEÍSMO E RELIGIÃO IORUBA

Luiz L. Marins

Setembro de 2017


O ateísmo: não há deus nenhum que cuida diretamente da humanidade, está em oposição ao teísmo: há um deus que cuida diretamente da humanidade. O teísmo possui várias classificações, mas vamos nos ater a estes:

Politeísmo: há vários deuses independentes e autocriados que cuidam diretamente da humanidade.

Monoteísmo: há um só deus autocriado que cuida diretamente da humanidade e não criou divindades para fazerem sua vontade.

Henoteísmo: há um só deus independente auto criado que cuida diretamente da humanidade, e que criou várias divindades subalternas para fazerem sua vontade, sem delegar-lhes poderes, etc ...

A RTY - religião tradicional ioruba (e possivelmente, muitas outras africanas) difere destas classificações europeias.

Nela temos um deus autocriado que NÃO cuida diretamente da humanidade (babalaôIfatokun, de Oyo), que criou divindades e delegou a elas poderes, para fazerem a vontade delas, e não a vontade do dele, criador.

Neste tema, Bewaji <aqui> refuta autores como clássicos como Idowu, autor do livro “Olódùmarè, the God in the Yoruba Belief”, pois, segundo ele, os conceitos teológicos europeus aplicados sobre Olódùmarè, como onisciência e onipresença, são estrangeiros, e não tradicionais da RTY.

O conceito de teísmo não é apenas a existência de um deus criador autocriado, criador de algumas divindades, mas principalmente da interação e do cuidado deste deus diretamente para com a humanidade, tal como fez a Moises, no monte Sinai.

De acordo com os ìtàn (mitos sagrados dos iorubas), isto não ocorre na religião tradicional ioruba; assim, a religião ioruba não pode ser monoteísta, no sentido teológico cristão.

Os orixás vêm ao mundo para fazerem a vontade deles, orixás, e NÃO de Olódùmarè, pois este não interage diretamente com a humanidade, não tem conhecimento de tudo que ocorre no mundo, pois para isto criou um mensageiro chamado Èsù, como podemos ver no ìtàn sobre Òsun e a 17ª pessoa <aqui>.

Deus é um só, é uma mentira.

Olôdumare não é o mesmo deus Jeová, e não tem os mesmos atributos teológicos, e a religião tradicional ioruba não é monoteísta.

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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O COSTUME IORUBA DE CULTUAR ORIXÁS NO VULTO

Por Erick Wolff de Oxalá
Agosto/2017

Este artigo traz algumas fotos sobre o vulto na tradição de orixá, nas quais poderemos ver diversas divindades representadas por vultos de madeira, podendo medir até mais de um metro de altura, conforme os costumes da região, vejam as fotos;

É muito comum o orixá Bara (Exu) sento em vultos; nesta imagem podemos ver dois vultos de Bara ainda contendo resquícios de uma oferenda.


créditos imagem: Esu Alaje by Elegun  Akinwale

Aqui podemos ver o vulto de Yemanja, junto com seus pertences sagrados ao redor, alguns utensílios até comuns entre os templos do Batuque.


Créditos da imagem: Iyemoja Ojubo Ibadan 1983 foto Osvaldo Omobatala

Nesta imagem, observem as louças e o vulto neste Ojubo de Obatala.

Créditos da imagem: Obatala Osogbo (Ifaleke Ajala)


Créditos da imagem: Obalufon Shrine, Ile Ife, 2006 
(Instituto Ekun)

Créditos da imagem: Osun (awo imule)


Créditos da imagem: Obatala_isara-remo_foto-ejire-olorisa


Observem neste vídeo os vultos;





Sinopse: Babalaw Awe é um curandeiro / fetiche que vive na fronteira entre Nigéria e Benim. Desde sua pequena empresa de consultoria, ele recebe todos os domingos, uma multidão de pacientes vem por problemas tão variados como doenças, questões sobre o futuro ou mesmo problemas existenciais. O homem trabalha de acordo com uma concepção própria, uma vez que ele cobra suas consultas com o resultado. No entanto, para consultá-lo, é preciso ganhar sua confiança e a de seus fetiches (tradutor online)



VULTOS E OKUTAS NA TRADIÇÃO DO BATUQUE

Na tradição do Batuque do RS, os sacerdotes costumam usar pedras chamadas de okutá (abreviando por otá), ou vultos, estes que representam determinadas divindades;

- Okuta: Uma pedra com formato determinado conforme a divindade a qual será senta, o local que deverão buscar esta pedra varia entre rios, caminhos, encruzilhadas, pedreiras ou campos.

- Vulto: vultos esculpidos em madeira, ferro ou pedra, são muito usados para determinadas divindades. Estes vultos em alguns casos são vestidos.

Estes Okuta ou vultos ficam em vasilhas de barro, louça ou ferro, podendo variar conforme o fundamento da divindade. Ainda encontraremos assentamentos de orixá dentro cabaças, cascas, cascos de alguns animais, ou potes de cerâmicas ou barro.  No interior destas vasilhas sempre acompanham ferramentas, búzios e fundamentos que pertencem àquela divindade, que não devem ser vistos por qualquer um expondo os seus segredos de feitura.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tanto os Vultos e Okutas são costumes que vieram da matriz para a diáspora através dos nossos ancestrais, assim como no vídeo pudermos ver os vultos na curandeira do sacerdote que vive na fronteira do Benin com a Nigéria. Saber o que cultuamos para sabermos quem somos.