quinta-feira, 19 de abril de 2018

A LEI DO PRECONCEITO E O (PSEUDO) RACISMO RELIGIOSO

A LEI 7.716/89, CHAMADA TAMBÉM DE LEI CAÓ

A Lei trata do crime de preconceito de cor, raça, religião, etc.

Entretanto, é preciso que se diga, em nenhum momento a Lei cita, ou prevê, "racismo religioso". Portanto, "racismo religioso" não existe ponto de vista legal.
 

Segue o texto da Lei para que possam analisar com mais profundidade o tema. Sugiro que digitem control +F para abrir janela de busca, e procurem pela palavra "racismo". Poderão constatar que ela não existe no texto da lei:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L7716compilado.htm


Outrossim, também é preciso registrar que, segundo o IBGE 2010 (temos os dados), os evangélicos são formados por uma maioria preta/parda, o que derruba a tese de racismo contra as religiões afro-brasileiras.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

IFA EM SAMUEL JONHSON


IFÁ EM SAMUEL JONHSON


THE HISTORY OF THE YORUBA, 1921, pags. 32, 33, 34


Tradução de Diego Sango



18/04/2018


Este é o grande oráculo de consulta no país Yoruba e foi introduzido em um período tardio pelo rei Onigbogi, que foi dito ter sido destronado por ter feito isso.

Outra tradição diz que foi introduzida no país iorubá por um Setilu, nativo do país Nupe, que nasceu cego. Isso foi no período da invasão maometana.

Os pais de Setilu lamentando sua infelicidade em ter um filho cego, a princípio duvidaram de que curso deveriam seguir, se matariam a criança, ou se poupariam sua vida para se tornar um fardo a família. Os pais decidiram que poupariam a criança. Cresceu como uma criança peculiar e os pais ficaram espantados com seus extraordinários poderes de adivinhação.

Na idade de 5 anos, ele começou a excitar sua admiração e curiosidade ao predizer quem lhes pagaria uma visita no decorrer do dia e com que objeto. À medida que avançava em idade, começou a praticar magia e medicina.

No início de sua prática, ele usou 16 pedrinhas e impôs com sucesso a credulidade daqueles que se reuniam em sua angústia pela consulta. A partir dessa fonte, ele ganhou um meio de vida confortável.

Descobrindo que os adeptos estavam rapidamente se tornando seguidores de Setilu, e que mesmo sacerdotes respeitáveis não escaparam do contágio geral, os maometanos resolveram expulsar Setilu para fora do país.

Feito isso, Setilu cruzou o rio Níger e foi para o Benin, ficando por um tempo em um lugar chamado Òwò, daí para Ado. Posteriormente, ele migrou para Ilé Ifè, e encontrando aquele lugar mais adequado para praticar sua arte, ele resolveu fazer dele sua residência permanente.

Logo se tornou famoso lá também, e suas performances também impressionaram o povo, e a confiança depositada nele era tão absoluta, que ele teve pouca dificuldade em persuadi-los a abolir as marcas tribais em seus rostos, pois tais marcas de distinção não eram praticadas em Nupe, o próprio país de Setilu.

No decorrer do tempo, nozes de palma, pedaços de ferro e bolas de marfim foram utilizados em vez de seixos. Nos dias de hoje, apenas as [sementes de] palmeiras são usadas, pois são mais facilmente propiciadas. As outras exigem sacrifícios dispendiosos e até mesmo sangue humano.

Setilu iniciou vários de seus seguidores nos mistérios da adoração de Ifá, que gradualmente se tornou o oráculo de consulta de toda a nação iorubá. Para se tornar um sacerdote Ifá, é necessário um longo curso de estudo sério.

Para consultar Ifa, o modo mais comum, 16 nozes de palma devem ser mexidas juntas na cavidade de ambas as mãos, enquanto certas marcas são traçadas com o índice atrasado em uma tigela plana polvilhada com farinha de inhame ou yerosun em pó.

Cada marca sugere ao sacerdote consultor os feitos heróicos de alguns heróis fabulosos, que ele conta de antemão, e assim ele continua com as marcas em ordem, até que ele encontre certas palavras ou frases que pareçam ter sobre o assunto do requerente antes ele. Muitas vezes as respostas são dadas muito depois, [como] o antigo oráculo de Delfos.

Ifá foi aceito pelos Iorubas através de Oduduwa, que conheceu Setilu em Ilé Ifè, mas sua adoração só foi oficialmente reconhecida pelo Aláàfin Ofiran, filho de Onigbogi.
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Transcrição: Luiz L. Marins – www.luizlmarins.com.br

sexta-feira, 6 de abril de 2018

O ÌTÀN E O ESE NA ACULTURAÇÃO DA PALAVRA


Luiz L. Marins

Atualização em
Abril de 2018


Aos estudiosos mais atentos, uma explicação técnica sobre o uso da palavra ìtàn (história) no corpo de um léselése (poema) se faz necessária, esclarecendo o conceito das palavras ìtàn (história) e ese (verso), e o seu uso.

Algumas palavras da língua ioruba, em virtude das convenções gráficas adotadas depois da colonização europeia, vêm recebendo importantes modificações conceituais e criando alguns embaraços linguísticos. Uma destas palavras é a palavra ìtàn (história).

Em língua portuguesa, uma história geralmente é contada em prosa[1], mas pode ser em verso[2], como no caso de “Os Lusíadas”, de Camões, sem deixar de ser, ou ter, o conceito de história. Portanto, história, para os falantes da língua portuguesa, pode ser em prosa ou verso.

Mas, em ioruba, isto não ocorre, pois, a palavra ioruba para história é ìtàn, enquanto que a palavra para verso, é ese. Como o idioma ioruba era originalmente ágrafo. Supomos que, talvez seja este o motivo pelo qual os dicionários de ioruba não registraram uma palavra nesse idioma que carregue os dois conceitos, tal qual ocorre com a palavra “história”, na língua portuguesa.

Na diáspora afro-brasileira a palavra ese não é usual, ficando restrita ao meio intelectual. A palavra ìtàn, ao contrário, é muito conhecida, mas adquiriu o conceito utilizado em português para palavra “história”.

Assim, arriscamos a afirmar na área da linguística que a palavra ioruba ìtàn está aculturada, mesmo em terras iorubas. A seguir, vamos dar alguns exemplos disso:

Pierre Verger apud Julio Braga, “O jogo de Búzios”, 1988, p. 27 na transcrição abaixo relata um encontro mensal dos babalaôs. Repare que Verger usa a palavra “história” quando está referindo-se aos versos de Ifá, percebendo-se claramente embutido o conceito europeu sobre a palavra “verso” (ese):

“[...] escuta-los repetir docilmente, verso por verso, uma nova história. É assim que os babalaôs presentes transmitem uns aos outros a sua ciência.”

Wande Abimbolá em Ifá, A Exposition of Ifá Literaty Corpus, 1976, p. 43, referindo-se aos ese Ifá, da mesma forma, utiliza o conceito inglês da palavra story, assim conceituando:

“[...] Ese Ifá pode ser uma simples história sobre [...]

Juana Elbein em “Os Nagô e Morte”, 1993, apresenta dois interessantes registros etnográficos da tradição oral por ela recolhida em pesquisa de campo na Nigéria, os quais trazem, em língua nativa, o uso da palavra ìtàn (história) em dois extensos ese (poemas) do oòsétùrá[3] de Èsù, utilizando esta palavra de forma aculturada, mesmo em língua ioruba:

“Èyè ni ìtàn Òsetùá odù Ifá. Ìtàn Èsù ni ònà ti Èsù ti Èsù gbà tí n fi'n gbé ebo lo esè Olódùmarè [...] (p. 139)

“Esta é a história de Òsetùwá tal qual é revelado pelo Odù Ifá. Diz a história como Èsù chegou a transportar todas as oferendas aos pés de Olódùmarè [...] (149)

Itàan Èsù! Níbi tí Èsù gbé gba àgbà [...] (p. 171)

A história de Èsù, do modo como Èsù tomou a primazia [...]

Pelo exposto, do ponto de vista técnico, é correto o uso da palavraa ìtàn com o significado de história para um ese (poema) ioruba, devido à aculturação linguística. Tal forma procura atender aos conceitos da diáspora, dos falantes de língua portuguesa, mantendo, porém, tanto quando possível, a forma do poema ioruba tradicional na sua construção poética. Tecnicamente o classificamos como “um poema de versos livres”.


·       Publicado em: “Obàtálá e a Criação do Mundo Ioruba”, 2013.


[1]  A maneira natural de falar ou de escrever, sem forma retórica ou métrica, por oposição ao verso. (Aurélio, 1995, p. 533)

[2]  Cada uma das linhas constitutivas de um poema, o gênero poético. (Aurélio, 1995, p. 671)

[3] Signo divinatório de Ifá.